Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2013

A ambição compensa

 

 

 

E eis que chegou um dos discos do ano, e só não o é por uma razão, mas já lá vamos.

 

“Manuel Fúria Contempla os Lírios do Campo”, é o segundo de uma trilogia idealizada e iniciada com “Manuel Fúria e as Aventuras do Homem Arranha”, disco em formato caseiro que poucos têm a sorte de ter, e que foi elaborado com o amigo Tiago Guillul. Já aí, o centro do disco era o retrato de um Portugal rural, não só aquele que é vivido no interior do país, mas muitas vezes no interior de cada um de nós. O sair de uma terra pequena para uma cidade grande, o ser adolescente e ser inadequado. Neste segundo disco, a fuga, procura de um sitio primordial onde o sujeito se possa encontrar em plenitude. A verdade é que este segundo registo, vai mais além, na produção, na composição, nos elementos que acompanham Manuel Fúria, na provocação e por fim no objectivo sónico.

 

 

Vamos desconstruir esta vontade megalómana de elevar a fasquia a todos os pontos. A escrita de Manuel Fúria é incisiva, é desafiante, é provocatória; “Só quero ver Lisboa a Arder”, “Tem cuidado rapariga, tem cuidado com a cidade”, esta visão de que a cidade e nomeadamente Lisboa, lhe pode roubar tudo, até a identidade e depois o apelo ao regresso “o que importa são os lírios, porque os lírios, lírios são”, e à verdadeira essência tem aquele efeito “blow me away”.

 

Mas nada disto poderia ter expressão se musicalmente as palavras não bebessem a melodia dos instrumentos. Para isso, Os Náufragos, isto é, Tomás Cruz no bandolim e guitarras, Paulo Jesus na guitarra baixo, Tomás Wallenstein no primeiro violino, Francisca Aires Mateus no segundo violino, Madalena Sassetti no acordeão e a voz principal de a "Tempestade" e Pedro Lucas na bateria. Mas nesta megalomania Manuel fúria convidou ainda Daniel Hewson no trombone, Bruno Margalho no saxofone e Ricardo Pinto no trompete e ainda Hélio Morais na bateria para dois temas.

 

Sim, é muita gente, sim, é muita coisa para assimilar, sim, pode parecer uma colagem aos Arcade Fire, mas só um louco como Manuel Fúria o poderia tentar, e digo-vos que quase, quase o conseguiu. Apesar da captação de José Fortes com quem já tinha trabalhado na captação do álbum dos Velhos, o resultado final, pedia mais... pedia mais claridade em algumas secções de alguns instrumentos, a sobreposição dos mesmos faz com que percamos a força do tema ou a profundidade em outros casos.

 

Sim, ouvir o disco bem alto ajuda e até pode resolver esta questão num tema ou em outro, mas no seu todo o disco não é perfeito e claramente não o melhor disco deste ano, mesmo sendo tão cedo, porque como já disse com alguma irritação até, o disco está aqui (apontando para o peito) e queria-o aqui (muito acima da cabeça), irritação porque acho sinceramente que podia ter sido um disco para relembrar daqui a 10 anos e assim vai ser relembrado mas talvez com esta mesma frustração.



“Manuel Fúria Contempla os Lírios do Campo” é apresentado de hoje a oito dias, 22 Fevereiro, no Ritz Clube, na compra do disco na Fnac têm direito a um bilhete para o concerto de Lisboa ou para o do Porto no dia seguinte no Plano B.

 

8.5

 

 

 

Pedro Moreira Dias


publicado por Pedro Moreira Dias às 14:01
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